COMO SE LIVRAR DE CHATO INTELECTUAL

Eu cursei algumas faculdades públicas, sempre convivi no meio "alternativo" da noite, e sempre gostei de filmes iranianos. Mas eu confesso que acho complicado aturar chatos intelectualóides que, de um modo bastante presunçoso, acham que aqueles que não admiram Glauber Rocha e Pasolini deviam queimar no fogo do inferno, de Dante.
Crio agora um pequeno manual de ajuda aos que gostariam de dispensar programas de índio em prol da cultura inútil e do besteirol puro:

Caso 1: Seu amigo chato intelectual te convida pra um sarau

- E aí, companheiro! Hoje vai ter sarau de poesia neo-concreta com exposição de quadros pintados com urucum. Vai ser lá na casa de arte "Mártires da repressão". Toda a galera inteligente e antenada contra essa política liberal-opressiva vai estar lá. Vamos? 
- Pois é, Ernesto. Você sabe que gosto muito de valorizar produtos genuinamente nacionais, sem ufanismo barato, mas com o resgate das raízes afro e do passado escravagista brasileiro. Sabia que os escravos transformaram a polca e a valsa européias num novo ritmo frenético que passou a embalar os encontros miscigenados?  Misturando tambores africanos, instrumentos melódicos oriundos da cítara e do cravo, e alternando o tambourine para um novo modo de se tocar, com a base na mão direita, inventaram o pandeiro. Com o resto da carne de porco que lhes eram entregues, acabaram por criar um novo e apetitoso prato. É com base nessa retomada do nacionalismo que eu vou à feijoada com pagode do Neneca. Lamento não poder ir ao sarau, mas combinei com o Jaú, o Xumbinha, o Beto voz de pato e o Soares, e você sabe né, tudo pelo Brasil.

Caso 2: seu amigo chato intelectual te chama pra assistir um filme do Godard

- E aí, companheiro! Hoje vamos à casa da Irene fazer uma sessão Jean-Luc Godard. Não serão só filmes dele, mas também de seus seguidores. Estamos programando 18 horas de cinema de qualidade. Nenhum tiro, mas pura revolução. Toda a galera inteligente e antenada contra essa política liberal-opressiva vai estar lá. Vamos?
- Pois é, Ernesto. Você sabe que essa nova onda de retomada da cultura imperialista norte-americana, com base na trégua que demos com a eleição do Obama, não tem me agradado muito né. Apesar de não achar que ele seja absurdo como o Bushinho, ainda estou esperando pra ver melhor qual é a desse cara. Por enquanto faço minha parte apoiando aqueles que são oprimidos mais de perto por essa política ianque. Tenho pesquisado bastante sobre o México, seu passado principalmente. E mantenho firme minha posição de ataque às culturas internacionais impostas. Lá eles produziram durante a década de 70, programas radicalmente nacionais, esnobando a estrutura e o derramamento inútil de dólares hollywoodianos. Efeitos especiais caseiros que, com um pouco de boa vontade, pareciam reais. O roteiro é maravilhoso, expondo problemas nacionais, tocando na ferida sem medo. A série se passa numa vila, com várias famílias convivendo e tendo que aturar-se envoltos em problemas financeiros. O protagonista é um garoto órfão que a cada problema se esconde num barril. Olha que sacada isso! Representando o imperialismo do Tio Sam, há um senhor gordo que cobra os aluguéis mas não providencia quaisquer melhorias aos moradores. E em especial há um senhor anárquico que se nega a pagar os últimos 14 aluguéis, assim como se permite viver sem trabalhar. Um dia te mostro esse seriado com mais calma...deixa eu ir, que se trata de uma pesquisa importante.

caso 3: Seu chato intelectual te chama pra participar de uma manifestação em favor da demarcação de terras dos índios Capacôco na divisa do Acre com a Bolívia.

- E aí, companheiro! Estamos organizando uma passeata com nariz de palhaço em frente à sede da Funai. Esse governo não entende que os índios são nossos pais, avós. Que eles também têm direito à terra. Aliás, a terra é deles!
- Pois é Ernesto. Eu queria muito ir, mas exatamente hoje estou com um trabalho voluntário. Você sabe que prezo muito pelas minorias e as mulheres estão sendo mal tratadas, humilhadas e, até mesmo, espancadas. Junto com minha companheira estamos dedicando um ato de amor contra essa realidade. Acho que se cada um de nós aprender a fazer sua parte, como tratar bem uma mulher, o mundo há de se tornar um bom lugar pra viver. Nossa pequena manifestação particular será num ambiente menor, com relexores verticais e horizontais, música propícia para o ato, e extenuante tarefa física. Não vou te convidar porque acho que cada um deve contribuir a seu modo, e o meu é só com ela.

Caso 4: Seu amigo chato intelectual te convida pra ir ao show do Tom Zé, no Campus

- e aí companheiro! Hoje reuniremos todos os companheiros a fim de assistir a um espetáculo de música e de poesia. Tom Zé vai estar no campus pra um show que pretende abrir os olhos dos jovens, pretende mostrar a capacidade de fusão da música brasileira, pretende mostrar a amplitude de possibilidades da poesia, pretende destravar o jovem da repressão musical imposta por rádios e tvs, pretende informar, pretende libertar, pretende bastante coisa. Enfim, é um show bastante pretensioso.
- Pois é Ernesto! Eu até queria ir, mas tenho outro show. Na verdade esse show que eu vou só pretende divertir. Mas isso é o que pensam os nobres músicos. Você sabe que prezo pelas minorias, e estou farto de canções embaladas pela beleza esquelética imposta pelas passarelas. Pois essa banda transgride ao cantar uma ode à feiura. Defendem a união civil homossexual, contestam a vertente musical sertaneja imposta como estigma ao centro-oeste brasileiro. São tantas as poesias transgressoras que me perderia em tecer elogios. Só há um problema pra nós, companheiro: Eles não tocam Raul!

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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, SETOR BUENO, Homem, de 26 a 35 anos

 
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